Mostrar mensagens com a etiqueta O Mundo de Alice. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Mundo de Alice. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O vazio entre as palavras

Em cada passo dado, em cada silêncio cedido, naturalmente, ao local onde ela se encontrava espelhou-se no seu rosto uma tristeza irrealista de não alcançar o que desejara.
Era o vazio entre as palavras que evocava os anjos das trevas do seu mundo, mágico e, simultâneamente, perigoso. Era o gosto amargo que preenchia a sua alma. Era o expandir dos erros do passado. Era o vago sentimento de quem mais nada pode ou tem.
Porém, eis que ela caiu em si, constatando, com certeza, que existia um caminho a percorrer. E, assim, largou, repentinamente, as bagagens do passado, a carga do materialismo e da insensibilidade humana. Estes eram os sentimentos mais marcados que trazia consigo. Eis que iniciou a derradeira corrida. Correndo, verdadeiramente, para que pudesse esquecer o muito pouco que trazia e o seu doloroso significado. O vazio entre as palavras caracterizava o momento, acontecido naquele aeroporto intemporal, embora sentimental.
Houve, ainda, quem tentasse agarrar, inutilmente, aquele ser. Todavia, a sua força era maior, tal como as suas ambições e desejos.

Nunca te esqueças,
Alice, era o seu nome.
18 de Junho de 2010

segunda-feira, 1 de março de 2010

Alice... eu ordeno-te

Alice observa à tua volta... eu ordeno-te.
Redescobre o passado daqueles homens e mulheres cujas costas, hoje, se curvam. Questiona-lhes as histórias por eles vividas e desmistifica os seus profundos segredos antigos. Deixa que as tuas doces palavras amoleçam o pulsar cansado dos seus corações. Decifra cada cabelo branco com a tua generosidade natural. Permite que as suas mãos cansadas toquem na tua nobre tez e te aconselhem sabiamente o caminho a ser seguido por ti. Depois, recorda as suas rugas, associando-as aos obstáculos pelos quais eles passaram e pelos quais tu passarás.
1 de Março de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ao som do piano negro

Após a conjuntura nocturna, após a enorme pausa em silêncio, após momentos de reflexão em recordações passadas, após o período de amargura…caiu, repentinamente e de forma violenta, o manto de veludo vermelho sobre o harmonioso mármore branco.
As teclas do piano, abandonadas pelo passar do tempo, moveram-se delicadamente. Os longos e magros dedos de Alice decidiram finalmente tocar-lhes após o momento de tormenta. O seu quarto despertava lentamente ao som de melodias antigas, de composições repletas de emoção.
Enquanto deliciava o espírito tocando piano sentada no seu canapé, o seu pensamento navegava à deriva no seu mundo de espectros e de mutismos. Simbolicamente sentia-se reconfortada, pois o sublime som do piano, recorrendo ao movimento das teclas cor de pérola, alegrava-lhe o ânimo, bem como o espírito.
Seriam possivelmente as composições musicais, o ritmo melodioso, as partituras clássicas, guardadas no gavetão da cómoda do seu quarto, capazes de reanimar a atmosfera humana daquele palácio de sentimentos onde Alice vivia envolvida.

No momento actual, tal ambiente fazia Alice sentir-se absorvida pelas notas musicais que a tornavam forte, imune, resistente aos obstáculos propostos voluntariamente pelo tempo.
4 de Fevereiro de 2010

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Miragem de recordações

Naquele exuberante local tudo era longínquo, distante, profundo...
Lembro-me de olhar pelos largos janelões e aperceber-me da singularidade daquele local. Recordo-me de como era envolvido por um extenso e penetrante bosque, onde abundavam flores de variadíssimas cores e espécies. Ali, naquele lugar, podia sentir o abandono do salão onde me encontrava, podia sentir um frio característico daquele espaço capaz de paralisar-me e regelar um qualquer movimento que pudesse dar naturalmente. Misterioso, taciturno, poderoso. Era assim que o meu espírito o caracterizava.
Todavia, o que me terá captado a atenção foi o amplo espelho existente no grandioso salão. Reflectia alguns dos momentos ali vividos por pessoas de outros tempos, com outras mentalidades, desiguais às actuais. Reflectia leves passagens de instantes vividos por outros seres. Rostos. Vidas passadas. Quantos nobres e famílias abastadas terão frequentado aquele nobre salão, ressequido pelo tempo? A madeira presente naquele chão estava, agora, gasta por tantos passos e momentos vividos.
Solidão. Avistei no tecto portentosos e valiosos candeeiros de cristal que permaneciam quase sós, numa sala onde escasseavam adornos. Pureza. Estranha sensação neste mundo, onde a ingenuidade há muito que desaparecera de forma inesperada. Perfídia. Era agora a falsidade que reinava no mundo real. Ostentação. Quantos quadros e retratos pintados a óleo presenciaram momentos consumidos pelo tempo. Beleza. Nas restantes divisões do palacete, os belos tectos constituídos por talha dourada podiam ser vistos na polida mármore presente no solo.

No momento derradeiro, resta resumir quanta terá sido a tristeza, quanto terá sido o tempo perdido, quanta será a saudade, quanta será a ilusão que ali ainda permanece. Certamente era um mundo diferente, era um mundo construído por recordações de outros tempos.
30 de Julho de 2008